A Amazônia brasileira está sob pressão. Queimadas, desmatamento, expansão de garimpos ilegais, fragilidade das terras indígenas e reservas, dentre tantas outras que sempre estiveram presentes, mas que se acirraram nos últimos tempos.

O mundo volta seus olhares para a maior floresta tropical do planeta, que está mais que nunca no centro de ideias de criação de novos fundos, abordagens e soluções que possam atacar o problema central nesse quadro: os modelos de desenvolvimento socioeconômico existentes não funcionam para a região, que tem como principal atributo e riqueza a sociobiodiversidade. 

É no meio da sociedade civil e do setor privado que muitas das soluções para a floresta vêm sendo gestadas e/ou fomentadas, em trabalhos em rede envolvendo povos da floresta, empresas, startups, ONGs, academia, organismos internacionais, poder público, investimento social privado e pessoas em geral. 

A união de esforços na busca de soluções tem viabilizado cadeias produtivas e negócios sustentáveis envolvendo comunidades indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores, tais como o Selo Origens e produtos alimentícios como as geleias e molhos da paraense Manioca, os chocolates De Mendes e Nakau, o mel do Instituto Peabiru, o Café Agroflorestal Apuí, a Pimenta Baniwa, os Cogumelos Yanomami, entre outros. Ou ainda os arranjos territoriais que investem no desenvolvimento local, tais como a Aliança Guaraná-Maués e o Programa Territórios Médio-Juruá, dentre tantos outros exemplos.

Um ecossistema que tem crescido e se fortalecido na região, o dos negócios de impacto, vem revelando, por meio de mapeamentos, chamadas e outros instrumentos, o quanto esse modelo já são realidade na Amazônia. Negócios de impacto buscam resolver questões sociais e/ou ambientais de modo a gerar, mais do que lucro, uma mudança no padrão de desenvolvimento da região. E isso inclui desde empresas em modelos mais tradicionais até negócios comunitários, numa pluralidade de novos arranjos possíveis. 

É dentro desse movimento, entendendo a importância das empresas na alavancagem desse ecossistema, que surge a Plataforma Parceiros Pela Amazônia (PPA), que em pouco tempo de atuação tem se destacado com grandes resultados. 

Criada em 2017, a PPA já realizou duas Chamadas de Negócios de Impacto na região. A primeira delas, em 2018, teve 81 negócios inscritos, dos quais quatro receberam investimento no valor total de R$ 1,1 milhão e 15 participaram da primeira turma do Programa de Aceleração da PPA. A Chamada de 2019 teve mais que o dobro do número de inscritos. Foram 201 negócios, dos quais 15 seguem para a segunda turma de aceleração em 2020 e alguns participarão de rodada de investimento ainda este ano. 

“Esses 201 negócios, juntos, já faturam mais de R$ 44 milhões. Não são mais apenas projetos piloto testando novas ideias. Tem negócio gerando emprego, vendendo produtos e serviços, gerando renda para comunidades e produtores rurais, pagando impostos e alavancando a economia regional. E estão fazendo tudo isso ajudando a conservar a floresta amazônica. Acredito que estamos vivenciando o início de uma grande revolução que pode mudar o rumo da economia nos próximos 10 anos. São negócios com um propósito maior, que além do lucro visam conservar a floresta e promover o desenvolvimento sustentável da região”, avalia Mariano Cenamo, coordenador executivo da PPA e diretor de novos negócios do Idesam. 

“Acreditamos que é de suma importância fortalecer os negócios de impacto na Amazônia. Esse apoio é um poderoso instrumento em prol de uma economia de baixo carbono, contribui para esverdear as cadeias produtivas e para o engajamento do setor privado, além de fortalecer o ambiente de negócios sustentáveis na região. O Humanize acredita que as boas ideias e soluções inovadoras – que chegam por meio desses negócios – são fundamentais para que a economia na Amazônia possa se desenvolver de forma sustentável e potente”, avalia Márcia Côrtes, gerente de sustentabilidade do Instituto Humanize, também integrante da PPA.

Os negócios selecionados pela primeira Chamada, que terminam agora sua jornada de aceleração, além de aplicarem conhecimento práticos em seus negócios, já começam a trocar serviço e a se fortalecer enquanto grupo, criando conexões que vão além da expectativa inicial, não só entre eles, mas com outros grupos produtivos. É o caso do Chocolate De Mendes, acelerado pela PPA em 2019, que trabalha na produção de chocolate com terroir amazônico e desenvolve atualmente uma barra a partir de uma outra matéria prima, o cupulate, feito a partir do cupuaçu. A barra de cupulate será lançada em parceria com a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra (Amabela), referência da defesa do cultivo e consumo de alimentos sem agrotóxico na região e no cuidado com o meio ambiente, que atua na produção desse insumo em Belterra, no Pará. 

“Elas vão oferecer a matéria prima para a barra e eu vou ajudá-las na padronização. A tecnologia social é delas, e vamos trazer essa história da Amabela para dentro do produto, pra que o consumidor conheça tudo isso”, diz o chocolatier Cesar de Mendes, que já trabalha com muitas outras comunidades no processo de fabrico das barras de chocolate.

“O Programa como um todo tem sido muito bom em conexões e aprendizados, de perceber que não somos loucos sozinhos em termos de impacto e Amazônia. Me surpreendeu muito, e ajudou especialmente na nossa visão de impacto. Nossa motivação sempre foi tornar os sabores amazônicos mais conhecidos e acessíveis, porque nós somos da área de gastronomia. Mas a gente não se enxergava como negócio de impacto. Passamos a mensurar e valorizar isso na nossa comunicação e internamente na equipe”, diz Joanna Martins, da Manioca, outro negócio acelerado pela PPA em 2019.

Para Livia Hollerbach, da Pipe.Social, parceira da PPA na realização das duas Chamadas de negócio, o aumento do número de negócios inscritos traz “mais oportunidades para fomentar uma economia de floresta sustentável e mais inovação para enfrentar desafios sociais e ambientais na região Amazônica. E para o setor de Negócios de Impacto, celebramos o fortalecimento da região Norte do país, que começa a atrair atenção de investidores e organizações de apoio aos empreendedores de impacto. Uma conquista importante da plataforma PPA que pode e deve inspirar iniciativas em outras regiões do Brasil.”

Em 2018, a PPA, em parceria com várias outras organizações, realizou o 1º Fórum de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis na Amazônia (FIINSA). O evento contou com a presença de centenas de pessoas, de diversos setores e regiões, incluindo investidores nacionais e internacionais, startups, aceleradoras, governos, empreendedores e representantes do terceiro setor. Esse grupo volta a se reunir, ainda mais fortalecido e amplificado, em 2020, na realização da segunda edição do Fórum. 

>> Conheça os negócios acelerados em 2019

 

Laboratórios e outras linhas de atuação fortalecem e fomentam um novo desenvolvimento

Embora a faceta mais conhecida da PPA seja o fomento ao empreendedorismo, incubação e aceleração de startups e negócios sustentáveis, a atuação da Plataforma é bem mais ampla. Outras três linhas de trabalho se somam no fomento a esses novos modelos de desenvolvimento. 

Um deles é o fomento à bioeconomia por meio de um marco fiscal já existente e criado pela Lei nº 13.674/2018, a nova Lei de Informática no Amazonas, que cria oportunidades de investimento local e permite a empresas elaborar programas e projetos de desenvolvimento sustentável para a região amazônica, voltados à bioeconomia. Nessa categoria se enquadrariam, por exemplo, princípios ativos e novos materiais da Amazônia, sistemas produtivos ambientalmente saudáveis, tratamento e reaproveitamento de resíduos, negócios de impacto e incubadoras. Possibilidade de fomentar um desenvolvimento tecnológico com base nas cadeias de valor da natureza. 

As duas outras frentes de atuação incluem explorar parcerias entre empresas já estabelecidas a Amazônia e que possuem grandes áreas florestais passivas, buscando dar uso econômico e social para essas áreas, gerando receita e envolvendo as comunidades; e alavancagem da economia local por meio do poder de compras e mobilização de empresas e de políticas públicas. 

Dois estudos estão em andamento pela PPA, um sobre usos socioambientais das reservas privadas, que contempla a identificação de experiências de uso de áreas de reservas privadas como ativos para o desenvolvimento sustentável de territórios e para a conservação da biodiversidade; e o segundo sobre mecanismos de repasse de recursos privados para comunidades, em especial na Amazônia Legal. 

Para entender e buscar soluções de grandes gargalos para os negócios amazônicos, a PPA promove, em parceria com a Climate Ventures, o Lab Amazônia: Desafio Logística e Comercialização de produtos da Sociobiodiversidade da Amazônia. Iniciado em junho deste ano com a presença de empreendedores de impacto amazônicos, empresas de transporte e logística, organizações da sociedade civil e outros parceiros, tem como objetivo trazer diversos olhares na busca por inovação para essas questões. 

O resultado desse início do processo foi o desenho de oito projetos, que seguem em processo de prototipagem pelos grupos participantes, nos temas mapeamento tributário; envolvimento de empreendedores focados em soluções; criação de um grande centro de distribuição em São Paulo; valorização do mercado local; escalonamento da produção de borracha; ampliação e reaproveitamento de estruturas de frete; criação de uma marca forte que fomente a comercialização dos produtos amazônicos; aglutinar plataformas que já existem numa grande plataforma da sociobiodiversidade, englobando vários territórios.

Os grupos trabalham em planos de ação para avançar e promover a implementação de soluções que gerem benefícios concretos para os negócios, visando a redução de custos e emissões de CO2, maior eficiência, otimização de recursos e aumento de benefícios para as comunidades produtoras. 

“Resolvendo alguns desses gargalos e potencializando o trabalho desses empreendedores, institutos e organizações será possível criar um marco para alavancar essa economia da floresta viva e mostrar que é possível ter desenvolvimento e melhoria na qualidade de vida dessas populações valorizando um conjunto de ativos que essa floresta tem para oferecer ao mundo. Essa economia da sociobiodiversidade é uma realidade e tem potencial para colocar o Brasil em um outro patamar”, avalia Daniel Contrucci, da Climate Ventures.

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O lugar das empresas nessa mudança

Para Alex Alves, da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), parceira estratégica e apoiadora da PPA desde a sua criação, as empresas precisam estar presentes, contribuir e participar do desenvolvimento sustentável da Amazônia, tanto quanto os governos, a sociedade civil e o terceiro setor. 

“Entendemos que as soluções que almejamos para esse grande desafio passam pela inovação, tecnologia, melhores práticas de gestão e recursos. Estamos certos que o setor privado tem muito a contribuir. E a PPA é uma resposta a isso. Para que as empresas possam ser reconhecidas e ter um papel protagonista nesse contexto. Para que possam realizar seus investimentos de impacto e identificar oportunidades de parceria, compartilhar boas práticas e lições aprendidas. É sempre bom lembrar que quem efetivamente faz a roda girar, cria empregos, gera renda, cria receita para o Estado, são as empresas do setor privado. É de se esperar que elas tenham boas ideias e possam ajudar nas soluções de importantes problemas, por estarem acostumadas com grandes desafios”, avalia Alves. 

Os dois estudos atualmente em andamento, citados acima, têm já bons precedentes entre os integrantes da PPA, como boas práticas e aprendizado. É o caso do programa Aliança Guaraná-Maués, desenvolvido pela Cervejaria Ambev/Guaraná Antarctica, Idesam e USAID no município de Maués, no Amazonas a partir da compra do guaraná, que vem trazendo melhorias organizacionais dos produtores rurais, implementação de métodos sustentáveis de produção e a valorização de atividades culturais e turísticas que promovem impactos positivos na comunidade.

Outro programa que segue nessa direção é o Territórios Sustentáveis, que acredita que é possível garantir que as pessoas da região amazônica tenham condições justas de desenvolvimento e oportunidades para uma vida melhor. Em 4 anos de programa, sua atuação atingiu direta e diretamente 96.344 habitantes e obteve inúmeros resultados sendo alguns deles: investimento na gestão ambiental de Faro através de recursos da concessão florestal, 7 planos de vida quilombola completados, registro e regularização de 45 associações, 3 planos diretores municipais revisados e elaboração e Implementação do Código Tributário de Oriximiná. O programa é uma parceria entre Mineração Rio do Norte, USAID, Ecam – que é também membro do comitê executivo da PPA -, Agenda Pública e Imazon. 

Segundo Vasco van Roosmalen, diretor executivo da Ecam “O programa atende três municípios onde nosso principal objetivo é apoiar as comunidades, associações, conselhos e grupos sociais organizados a tomarem decisões, respeitando as características individuais de cada local. O importante é que cada território passe a tomar suas decisões e façam isto com autonomia. Cada parceria que surge é uma força a mais para chegarmos ao desenvolvimento territorial sustentável e consciente”.

Um terceiro é o Programa Territórios Médio-Juruá, sob coordenação da SITAWI, que foi constituído em 2017 a partir do financiamento da USAID e de parcerias com Natura e Coca-Cola Brasil (membros da PPA).  O Programa decorre de uma iniciativa dos membros do Fórum do Território Médio-Juruá, criado em 2014, e tem como objetivo fortalecer a cooperação e integração entre organizações e instituições que atuam na região para promover a qualidade de vida de povos e comunidades tradicionais, cadeias de valor e conservação da biodiversidade. 

O grupo inclui empresas que atuam na região, ONGs, associações e cooperativas locais (ASPROC, AMARU, AMERCSARA, ASMAM, FAS, CODEAM, OPAN) e órgãos governamentais como ICMBio e DEMUC, na gestão da Reserva Extrativista do Médio Juruá e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari. O Programa tem como objetivo apoiar a implementação de um Plano de Desenvolvimento Territorial para o Médio-Juruá e ampliar os impactos das iniciativas de conservação ambiental, promover o desenvolvimento social, a melhoria da qualidade de vida e geração de renda pelo uso sustentável da biodiversidade. As prioridades do programa foram evidenciadas a partir da medição do Índice de Progresso Social (IPS) das comunidades, aplicado na região desde 2015.

E há ainda o projeto SAF-Dendê, desenvolvido pela Natura em parceria com USAID, Embrapa, Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu e o Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal, que se dedica ao estudo e implementação de sistema agroflorestal (SAF) no cultivo do óleo de palma (dendê), matéria prima empregada em especial nos setores alimentício e cosmético, em 38 hectares na região de Tomé-Açu. 

“Essa nova economia de que a região amazônica precisa tem que estar baseada em negócios voltados para resolver os problemas sociais e ambientais urgentes que nós temos hoje. E a PPA vem muito nesse sentido, de identificar diferentes fretes que possam ajudar a encontrar os caminhos para essa economia”, avalia Mariano Cenamo. 

Nessa pluralidade de frentes em avanço, está no centro da PPA a atuação em rede, de modo a ampliar o alcance das ações. Juntos, os diversos atores da região podem encontrar soluções que isoladamente demorariam mais tempo para serem gestadas. “A PPA é uma importante iniciativa de busca por soluções para a Amazônia.  Precisamos, com a liderança do setor privado, encontrar caminhos que levem à redenção da Amazônia através da produtividade do seu povo e da abundância da floresta, sempre com a conservação ambiental em mente”, avalia Denis Minev, diretor presidente da Bemol.   

Além de gigante, a Amazônia é uma terra de contrastes. A região reúne um acervo variado de experiências e esse universo precisa ser desbravado. O diálogo é uma chave de leitura e permite que a sociedade faça das suas contradições um pacto de convivência. Investir em diálogo resulta em espaços negociados e acordos pelo bem comum. Dialogar é reconhecer interesses antagônicos, mas sobretudo predispor-se a conciliá-los. Na terra dos contrastes nem sempre os fortes sobrevivem. Sobrevive quem se une”, avalia Iêda Fernandes, da Abrapalma, uma das empresas que tem se envolvido nas atividades da PPA. 

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