Com identidade visual representativa da população local, campanha Eu uso máscara porque eu te respeito! alcança 80 mil pessoas na região da Calha Norte Paraense

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Características físicas e culturais de ribeirinhos, quilombolas e indígenas do Pará inspiraram a identidade visual da campanha Eu uso máscara porque eu te respeito!, que está sendo veiculada na região da Calha Norte desde outubro de 2020. Iniciativa do Programa Territórios Sustentáveis, foi colocada em ação pela Agenda Pública, uma das organizações que fazem parte do PTS, dentro do projeto Mitigação de Impactos da Covid-19 e já alcançou cerca de 80 mil pessoas. A meta inicial da campanha de prevenção e conscientização no combate ao novo coronavírus era de 30 mil pessoas.

O território de 270 quilômetros quadrados, equivalente aos estados de São Paulo e Alagoas juntos, é uma área com extensas unidades de conservação e densidade populacional baixa, o que deixa as comunidades tradicionais muito afastadas do acesso a serviços públicos e informações confiáveis, por exemplo. Por outro lado, faz com que elas mantenham fortes laços de pertencimento, cultura e cooperação, o que torna a particularidade da campanha ainda mais significativa.

Mesmo não tendo terminado ainda, o resultado positivo do trabalho é reflexo de uma estratégia assertiva e criativa que uniu comunicação pensada para a realidade local e com representatividade materializada por diferentes ferramentas de comunicação.

“Se ver é muito importante para que a pessoa se imagine naquela situação. E, uma vez que se reconhece naquilo ou reconhece alguém próximo em um cenário de tanta gravidade, como a realidade que estamos vivendo de pandemia, serve como alerta mais forte para prestar atenção e reforçar o comportamento de prevenção e cuidado”, diz Gabriela Monteiro, design e ilustradora que deu vida e cor às personagens da campanha.

Paraense, Gabriela estudou diversas referências visuais relacionadas ao tema. A partir daí, começaram os primeiros rascunhos dos desenhos, a escolha da paleta de cores e da tipografia. “Meu trabalho como ilustradora foca a questão da ancestralidade negra, buscando representar os traços das pessoas que eu desenho para que elas  se identifiquem como tipo de cabelo, de nariz, etc. Então, já tinha produzido materiais semelhantes. Mas com o olhar para pessoas indígenas e ribeirinhas foi a primeira vez”, explica a artista, que iniciou os personagens desenhando um homem negro idoso, inspirada na aparência do próprio avô. 

Com duração média de um mês, entre rascunhos, aprovação, digitalização, colorização e finalização, Gabriela se sentiu realizada com a criação. “Por ser uma experiência global, a pandemia afetou a todos. Poder contribuir de alguma forma com minhas ilustrações é um acalento em meio a esse caos.” 

Taila Pinheiro Pantoja, da comunidade Paraíso, do município de Terra Santa, diz que a doença pegou todos de surpresa. Por isso, o projeto de mitigação vem fazendo muita diferença na vida dos moradores. “Muitas pessoas ficaram em pânico, afetou muito o psicológico. Mas aqui as pessoas gostam de ser orientadas. Tudo isso tem grande valia para nós.”

Sonora e digital

Com a identidade visual da campanha pronta, deu-se início ao plano de comunicação, que contou com a capacidade de adaptação da Agenda Pública para conversar com diferentes territórios. “Usamos uma linguagem que fala diretamente com a população local, levando em conta as particularidades do público-alvo”, afirma Talita Perna, coordenadora de comunicação da organização.

Em geral, os projetos da Agenda Pública já têm uma identidade única que é replicada em materiais semelhantes ao da campanha da Calha Norte. “Para esse projeto, compreendemos que era fundamental a população se enxergar no que estávamos comunicando para confiar nas recomendações e aderir às orientações”, diz a coordenadora. “As mensagens de uma comunicação são sempre melhor assimiladas a partir da forma como o público recebe o conteúdo.”

A construção do briefing da campanha partiu justamente daí. A ideia de “tem relação comigo, com a minha vida, com as minhas particularidades, entendo e sei que faço parte desse contexto” norteou o planejamento. Foram criados banners, cards e vídeos animados para redes sociais do PTS, além de identificação para os veículos que transportavam as cestas básicas e os kits de higiene – um barco entre eles. Um spot com músicas típicas da região, como carimbó e tecno-brega, e a voz de pessoas locais também foi veiculado nas rádios regionais e em um carro de som que circulava pelas cidades inteiras disseminando a mensagem com dicas de prevenção.

“Desde o início sabíamos que o material sonoro seria importante para levar o conteúdo porque é uma particularidade da região”, destaca Talita. Elaborando o briefing a partir de São Paulo, o principal desafio era a falta de contato diário com o público-alvo para identificar quem são essas pessoas, quais são seus hábitos, o que é o foco de atenção delas, como atingi-las e sem, de repente, cair em estereótipos. “Por isso, trabalhamos com profissionais da região para o projeto. E contratar fornecedores locais também era um objetivo para apoiar a economia local.” 

Para Talita, os resultados concretos e que ultrapassaram a meta inicial de alcance é a prova de que vale investir no entendimento do que faz sentido para as pessoas genuinamente interagirem, compartilharem e seguirem. “Nunca de forma imperativa, mas trazendo o sentimento de que estamos todos juntos nesse momento e precisamos fazer a nossa parte para proteger nossas famílias e comunidades.”

Mitigação

A pandemia da Covid-19 atingiu fortemente comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas que estão isoladas e que têm mais dificuldade de acesso aos serviços públicos. Além disso, afetou também as populações urbanas dos municípios remotos da região da Calha Norte devido ao fechamento dos portos (que ocorreu por diversos meses), a diminuição do turismo, a impossibilidade de funcionamento do comércio, dificuldade no recebimento de mercadorias, entre outros obstáculos.

Como representante do Programa Territórios Sustentáveis, a Agenda Pública vem liderando o projeto Mitigação de Impactos da Covid-19 para ajudar populações vulneráveis a se protegerem e aprimorar os processos de saúde e vigilância em resposta ao novo coronavírus, com foco nos hospitais e unidades de saúde locais.

A campanha de comunicação faz parte do projeto, assim como a entrega de cestas básicas e kits de higiene aos moradores locais e a realização de oficinas de melhoria de serviços públicos de saúde e vigilância em saúde. Ainda sobre o trabalho de informação, vale ressaltar quanto foi uma contribuição essencial para as comunidades também sobre como cuidar de pessoas que tenham adoecidas com a Covid-19 e diminuindo o impacto das fake news, especialmente em relação à vacinação.

As ações foram possíveis por meio da iniciativa “PPA Solidariedade: Resposta à COVID-19 na Amazônia”, uma parceria entre Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), NPI Expand, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), Mineração Rio do Norte (MRN) e SITAWI Finanças do Bem. O Programa Territórios Sustentáveis, representado pela Agenda Pública, com co-investimentos da Mineração do Rio do Norte, vem respondendo aos impactos da COVID-19 nos municípios de Oriximiná, Terra Santa e Faro, no oeste do Pará.