Fortalecendo a conservação da biodiversidade na Amazônia: Programa Território Médio Juruá inicia nova fase

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Pouco antes das 5 horas da manhã, Dione Araújo de Medeiros, mãe de quatro filhos, já está de pé ajudando outras mulheres da comunidade Xibauazinho. Elas trabalham na logística da pesca do pirarucu e também na limpeza do peixe antes de ser enviado ao entreposto, recebendo pagamento remunerado pelas tarefas. Fazem parte do projeto de manejo sustentável do pescado no Médio Juruá.

Enquanto isso, em Manariã, comunidade a cerca de três horas e meia de barco de Xibauazinho, Francisco da Silva, conhecido na região como “seo Bomba”, já atravessou de “rabeta” (uma canoa de madeira com motor movido a gás) para o outro lado da margem do rio. Foi até à praia, onde cuida dos locais de desova de quelônios, inserido no programa de monitoramento para a conservação de tartarugas, tracajás e iaçás. 

Um pouco mais distante dali, na comunidade São Raimundo, a jovem Maria Cunha Figueiredo alimenta a filha antes de seguir para o posto de telessaúde. Lá atua como agente de saúde, dando assessoria para os moradores do local, atividade que acumula com a de agente ambiental voluntária e liderança jovem. 

Ribeirinhos como Dione, “seo” Bomba e Maria vivem em comunidades do Médio Juruá atendidas na segunda fase do Programa Território Médio Juruá (PTMJ). O programa visa contribuir com o desenvolvimento sustentável do território, de extrema importância ecológica por sua área contínua de floresta tropical preservada, oferecendo meios de subsistência sustentáveis, bem-estar às populações tradicionais e conservando a biodiversidade. 

Manejo de Pirarucu realizado por ribeirnhos nos lago, Marari Grande da comunidade Xibauazinho na RDS Uacari, regiao do Medio Jurua em Carauari, Amazonas, Brasil. Setembro 2021. Foto: Bruno Kelly.

O território abriga uma área de 1,2 milhão de hectares, com duas Unidades de Conservação – a Reserva Extrativista (Resex) Médio Juruá e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari – e parte da Terra Indígena Deni do Rio Xeruã, cobrindo uma grande área da zona rural do município de Carauari (AM).

Além do apoio da USAID/Brasil e da Natura, o PTMJ terá nesta segunda etapa a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) como parceiro estratégico e a participação da Aliança Bioversity/CIAT. A coordenação permanece com a SITAWI. Seis organizações comunitárias locais (ASPROC, ASMAMJ, AMECSARA, AMARU, CODAEMJ e ASPODEX) estão entre as implementadoras das ações. Contará ainda com ICMBio, Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e OPAN.

O programa está estruturado em três pilares integrados: meios de vida sustentáveis, conservação da biodiversidade e coesão social. As ações têm como foco apoiar o fortalecimento das cadeias de produtos do Médio Juruá, fomentar o empreendedorismo local, além do uso e manejo sustentável dos recursos naturais. Busca, assim, garantir a melhoria no gerenciamento dos negócios de base extrativista, da qualidade de vida da população e a conservação da biodiversidade da Amazônia. 

Com público-alvo de cerca de 4.500 moradores de 61 comunidades ribeirinhas, além de cinco aldeias indígenas ao longo deste trecho do rio Juruá, o PTMJ envolve uma ampla base de atores locais e parceiros externos para, de forma participativa e colaborativa, desenvolver e implementar os projetos. Entre eles estão, por exemplo, apoio ao manejo do pirarucu selvagem e outros peixes, como o tambaqui; o monitoramento de tabuleiros de conservação de quelônios; o apoio a programas de educação ambiental e o fortalecimento organizacional local. 

Na primeira fase, entre 2017 e início de 2021, o programa mobilizou R$ 16,8 milhões, atendendo a mais de 3.500 moradores com melhorias socioeconômicas e contribuindo com o aprimoramento da gestão organizacional de quatro associações locais. 

Ajudou a conservar mais de 919 mil hectares, aprimorando a gestão territorial de áreas protegidas e comunidades do entorno, mostrando ser possível gerar impacto socioambiental positivo, envolvendo comunidades, associações, ONGs, poder público e empresas (acesse o relatório final em Português aqui).

“A primeira fase do PTMJ veio para ajudar a conseguirmos superar vários obstáculos. Esperamos que agora esse outro projeto possa consolidar a cadeia como um todo de forma que fique cada vez mais sustentável porque sabemos da sua importância aqui na região”, diz Manuel Siqueira, presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC). 

Expectativas para o novo ciclo 

“Na primeira fase, o programa deu oportunidade a vários jovens, abrindo as portas para projetos em suas comunidades. Agora esperamos que a juventude seja vista como parceira na conservação da biodiversidade e fortalecimento das organizações”, diz Maria Cunha ao ser questionada sobre o que espera do PTMJ. 

A presidente da Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ), Quilvilene Figueiredo da Cunha, diz que a segunda fase do programa vem para fortalecer ainda mais as iniciativas das comunidades. “Queremos fortalecer iniciativas de empreendedorismo que ajudem a empoderar as mulheres. Aprendemos que, quando é oferecida capacitação para a mulher aprender algo novo, ela está se empoderando”, afirma.

Já o presidente da Associação de Moradores Extrativistas da Reserva Uacari (AMARU), Franciney de Souza, destaca a importância da atividade de coleta de sementes, como andiroba e murumuru, e o processamento para a extração de óleos. “Essa cadeia tem um potencial grande para os moradores daqui. É mais uma renda que entra para as comunidades sem degradar a natureza”, diz.

Para Manuel Cunha, gestor da Reserva Extrativista (RESEX) Médio Juruá e morador da comunidade São Raimundo, a expectativa é dar continuidade ao trabalho já realizado, com ênfase na organização comunitária. “Ela é a base. Se não tiver a organização comunitária fortalecida, as outras coisas são casa sobre areia: um vendaval pode desabar”, compara. 

Com forte histórico de organização social, as comunidades do Médio Juruá desenvolvem, por meio de associações e cooperativas locais, ações em cadeias de valor e em projetos de conservação da biodiversidade. Recebem apoio da USAID, instituições governamentais e empresas, como a Natura. 

Mesmo com o sucesso de iniciativas de manejo e de conservação dos recursos naturais, ainda há espaço para melhorias. É neste sentido que a segunda fase do PTMJ pretende dar ênfase, apoiando o fortalecimento das cadeias de produtos do Médio Juruá, fomentando o empreendedorismo local – com destaque para as mulheres – e incrementando ações de manejo sustentável e de proteção territorial. 

Conheça mais sobre o PTMJ assistindo ao vídeo abaixo e lendo o relatório final da primeira fase do programa em info.sitawi.net/relatorio-final-ptmj

Texto: Luciana Constantino.