Uma bioeconomia amazônica é um caminho para o Brasil

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Ataques a territórios indígenas por invasores de terras (grileiros, madeireiros, garimpeiros, etc.) têm aumentado nas últimas semanas no Brasil. Conflitos pela terra em geral atingiram uma preocupante marca – 1576 casos em 2020, o máximo registrado desde que a Comissão Pastoral da Terra começou a colher esses dados em 1985 – e um aumento de 25% sobre o número de casos em 2019. Invasões de terra também bateram recordes, dobrando em 2020, sendo que povos indígenas representaram 72% dos casos registrados. Essa situação, somada à demissão do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, devido a alegações de contrabando de madeira, mostra de maneira contundente o quão volátil e urgente as coisas se tornaram na fronteira da floresta amazônica.

O aumento contínuo do desmatamento e da destruição ambiental na Amazônia brasileira é uma evidência clara de que o caminho para o desenvolvimento da região foi mal concebido. De qualquer maneira, os governos federais e estaduais precisam conciliar o crescimento econômico para beneficiar os milhões de brasileiros que vivem nessa vasta região. O desafio e a oportunidade que o Brasil confronta é conseguir essa meta com investimentos privados, promovendo a conservação da Amazônia e dando apoio a milhares de povos indígenas e comunidades tradicionais da floresta.

A criação de políticas, mercados, infraestrutura e conexões inovadoras é urgente para apontar uma nova direção para um desenvolvimento sustentável, inclusivo e ambientalmente seguro. A bioeconomia da Amazônia, ou Amazônia 4.0, como tem sido chamada por Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, é um caminho promissor para a Amazônia brasileira. O New York Times descreveu esse novo caminho como parte da quarta revolução industrial. Como força econômica proeminente e sendo o país com a maior área de floresta do mundo, o Brasil está posicionado estrategicamente para ser um líder global, criando uma nova maneira de fazer negócios, um desafio e uma oportunidade neste momento em que os países lentamente entram na recuperação pós-pandemia.

Fonte: Forest Trends

Enquanto o desmatamento continua a crescer na região amazônica, os governos locais estão sob pressão para controlar a perda de floresta e gerar crescimento econômico, ambos dependentes da conversão de florestas para agricultura e pecuária. Isso coloca imensa pressão sobre a fronteira florestal e as comunidades indígenas vivendo do outro lado.

Como uma barreira contra mais perdas de floresta, os indígenas são importantes contribuidores para a conservação de paisagens florestais intactas, beneficiando a conservação da biodiversidade e os compromissos climáticos nacionais. Territórios indígenas tiveram 0,1% de perda líquida de carbono de 2003 a 2016 – a taxa mais baixa entre as áreas protegidas da Amazônia. Um terço dos estoques de carbono da região estão em territórios indígenas.

As mais de duas décadas de parceria com povos indígenas ensinaram à Forest Trends que a colaboração a longo prazo e o apoio às comunidades indígenas é o melhor caminho para estabilizar a fronteira florestal – ajudando-os a defender sua floresta de atividades ilegais e fortalecendo as economias florestais de acordo com sua autodeterminação. Há um equilíbrio a ser alcançado entre a administração da terra e o seu uso sustentável, algo que os povos indígenas ao redor do mundo têm praticado por gerações.

Os sistemas tradicionais na Amazônia têm sido baseados na diversidade, não na monocultura, se beneficiando da fartura de alimentos oriundos do manejo da floresta, cuidadosamente realizado em diferentes tipos de floresta e áreas cultiváveis, mantendo a paisagem intacta. A “Bioeconomia da Amazônia” que propomos mimetiza os sistemas tradicionais de manejo com potencial de criar cadeias de fornecimento diversas baseadas na riqueza natural da região.

O modelo atual se baseia em monoculturas como gado de corte, soja ou óleo de palma. As consequências da falha em mudar essa prática são severas e só ficarão piores, como foi ressaltado em nosso relatório recente, “Illicit Harvest, Complicit Goods”, que mostrou que, no mínimo, 69% das florestas tropicais destruídas para a produção de commodities entre 2013 e 2019, foram consequência de atos ilícitos, violando leis e regulamentações nacionais. Agora é hora de focar a atenção do mercado e dos consumidores em produtos que sustentem as florestas e suas comunidades, ao invés daqueles que promovem sua destruição. Essas são estratégias locais com impacto global, criando benefícios diretos e mensuráveis para as comunidades da floresta e um clima seguro para todos nós.

Artigo escrito por Beto Borges, diretor da Iniciativa Comunidades e Governança Territorial da Forest Trends (ICGT-FT) 

Fonte: Forest Trends, disponível neste link.