Aprendizados do Portfólio com Youth Climate Leaders e Climathon: Desafios da bioeconomia na região amazônica

Compartilhar em facebook
Compartilhar em twitter
Compartilhar em linkedin

Criado em 2018 por quatro mulheres brasileiras, o Youth Climate Leaders (YCL) oferece soluções para dois dos principais desafios deste século: a crise climática e o desemprego estrutural. No YCL, jovens são treinados, capacitados, empoderados e conectados com redes e oportunidades de construírem uma carreira na área de clima e sustentabilidade. Isso porque a organização acredita que é possível catalisar a inserção profissional de jovens através da educação climática e fazendo a ponte com organizações que já atuam no setor, gerando assim maior conhecimento e informação sobre o tema.

Nesse sentido, o Climathon, realizado em parceria com o UNLEASH e apoiado pela PPA, foi um programa que teve o objetivo principal de mobilizar e capacitar os jovens da região amazônica para liderar soluções que pudessem enfrentar os desafios bioeconômicos locais, promover a justiça e a conservação das florestas. Por meio do programa, os jovens conquistaram ferramentas e habilidades inovadoras, ao mesmo tempo em que desenvolveram iniciativas que podem ser apresentadas às partes interessadas relevantes e podem enfrentar os desafios da mudança climática e da biodiversidade.

Com o objetivo de contribuir com ideias que fortaleçam a bioeconomia e o desenvolvimento sustentável da Amazônia, a PPA tem realizado – no âmbito da campanha Caminhos para a Amazônia – o quadro “Aprendizados do Portfólio”. Nesta atividade, são entrevistados porta-vozes das iniciativas apoiadas pela Plataforma. Na primeira entrevista da série, foram convidados Karla Braga (UN Youth Ambassador, Engenheira Ambiental e Organizadora Climathon pelo Youth Climate Leaders) e Jósimo Kãdeyruya (Líder da ideia Ka’Pa Puyanawa, uma das vencedoras do Climathon) para discutir sobre a iniciativa e importância do apoio a ideias das juventudes locais, para o fortalecimento de negócios em estágios iniciais que enderecem soluções para os desafios amazônicos. 

Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Karla, você é engenheira sanitarista e ambiental e integrante de diferentes fóruns participativos, incluindo instâncias das Nações Unidas, COJOVEM e outros importantes. Como você considera que a sua experiência contribuiu com a estruturação do Climathon da Youth Climate Leaders (YCL)? Como foi para você se engajar e se envolver na organização desta iniciativa?

Karla: Me engajar e me envolver no Climathon foi, sobretudo, uma forma de fortalecimento não só de mim, mas das juventudes com as quais eu me conectei ao longo da iniciativa. Para além do papel de organizadora, eu também ocupei o lugar de mobilizadora, engajando a galera e chamando para participar. Conseguimos ter uma abrangência do Climathon, justamente por ter acesso a essa rede de fóruns.

Essas oportunidades nem sempre existem para as juventudes. É um grande movimento de furar essa bolha para que possamos adentrar nesses espaços, não só debatendo sobre essas temáticas, mas também sendo ouvidos e tendo a oportunidade de compartilhar os nossos pontos de vista para a construção dos nossos territórios. Não podemos desvincular as juventudes desses territórios, principalmente porque não somos o futuro, somos o agora. Tudo isso me agregou muito como organizadora, mobilizadora e articuladora nos territórios amazônicos.

PPA: Jósimo, você foi líder da ideia Ka’Pa Puyanawa, uma das soluções premiadas durante o último Climathon, que é um programa de geração de renda a partir do cultivo do milho em sistema agroflorestal. O objetivo é promover a soberania alimentar do povo Puyanawa, mas como surgiu esta ideia? Pode compartilhar conosco um pouco da sua trajetória e identidade com esta cultura?

Jósimo: Eu sou de um povo indígena que eu considero muito pequeno. Nós sofremos um grande extermínio das nossas práticas tradicionais. Hoje, na minha qualidade de antropólogo indígena, eu me aprofundo sobre as nossas verdadeiras raízes e elementos culturais. Desde criança, o meu pai sempre me contava algumas narrativas, entre elas a do milho. Lá pelos anos 80, 90, meu pai e outros eram grandes produtores de milho aqui. Fazíamos algumas reuniões e celebrações com milho. De um tempo pra cá, o milho desapareceu por completo. Eu propus essa ideia, com o nome de Ka’Pa Puyanawa, com o objetivo de resgatar essa memória, esse conhecimento, essas técnicas tradicionais de como o povo Puyanawa cultiva o milho. Dentro dessa história, entram mais dois pilares. O primeiro, promover a soberania alimentar, pois hoje estamos muito dependentes das cidades. E, também, a geração de renda dentro do próprio povo. Ainda temos muitos conhecimentos, muitas pessoas talentosas, que estão conhecendo um pouco dessa memória e história. Esse é o primeiro projeto que estou desenvolvendo com os jovens do meu povo, que não tinham conhecimento dessa narrativa. Eles agora estão se preocupando com isso. O milho não é só um resgate, há outros fatores envolvidos. Vejo, também, que eles estão querendo trabalhar essa questão da geração de renda. 

Uma das nossas integrantes vai assistir o curso do YCL. Essa é uma forma de dar um retorno e fazer alguma coisa pelo meu povo. Sem sombra de dúvidas, o Climathon veio para contribuir com essa autonomia e dar esse protagonismo. Isso significa a sobrevivência de um povo, a sobrevivência de uma história.

PPA: Sabemos que o Climathon e a Youth Climate Leaders têm como principal foco o público jovem. Do seu ponto de vista, qual a importância das juventudes liderarem a geração de soluções inovadoras que promovam a bioeconomia da Amazônia e a conservação da floresta? O que o YCL e o programa efetivamente ofereceram para colaborar com esta missão e como os parceiros, incluindo PPA, os têm apoiado nesse sentido?

Karla: Porque as juventudes? Isso começa muito com o meu íntimo. Vejo a juventude como um estado de espírito, de se manter engajado, ter força para seguir. A juventude é sobre isso, engajamento, coragem, é sobre esse espaço disruptivo que existe em nossa sociedade e precisa ser cultivado. Quando você pára pra pensar no aspecto amazônico, você percebe que o desenvolvimento do bioma Amazônia não foi condizente com o nosso território. Gerando degradação, saque dos nossos recursos. Isso gera degradação para o território e, principalmente, para quem aqui vive e ama. E constrói sua vida em meio a lutas e resistência. Como parte dos públicos mais vulneráveis, você encontra a juventude. E, muitas vezes, sem oportunidades de construir mudanças efetivas que possam criar novas realidades.

A nossa juventude teve mais acesso do que a juventude anterior. Queremos romper bolhas, trazer conosco outros jovens e outros amazônidas, para criar conosco a mudança que queremos ver no nosso território. Precisamos abraçar as juventudes, mantê-las engajadas para ter oportunidade de construir novas perspectivas. 

Mas é preciso dizer que temos muitas vulnerabilidades. Econômicas, sociais, de acesso a educação, internet, tecnologia. Isso nos impossibilita ter acesso às ferramentas para que possamos inovar. É aí que entram os parceiros. A juventude precisa liderar, mas para isso precisamos fazer uma grande coligação em prol da Amazônia, através de uma perspectiva multissetorial.

É um lugar muito lindo o dos parceiros do Climathon, inclusive a PPA, que tem possibilitado através de recursos financeiros, capacitações, a materialização das transformações que queremos ver no território. 

PPA: Sabemos que os desafios são lugares comuns na execução de qualquer projeto que envolve o tema meio ambiente e sustentabilidade, principalmente na Amazônia. Vocês podem elencar alguns deles e quais aprendizados extraíram das suas experiências no território?

Jósimo: Os desafios são enormes quando tratamos da Amazônia, especificamente. O maior desafio hoje é mantermos a floresta em pé. Só que manter a floresta em pé, também, é saber trabalhar com ela. Por exemplo, o meu povo, assim como outros povos indígenas, sabe como trabalhar com ela há milênios de anos. Hoje esse é um dos maiores desafios. 

Um outro desafio, especificamente do meu povo, é poder ingressar a juventude nesse projeto. Os fatores externos são outros aqui no nosso povo. Há um desinteresse muito grande pelos mais jovens no que se refere à memória e tradição do povo. 

O Climathon veio, neste sentido, para dar essa contribuição maior, pois foi um evento organizado por pessoas jovens, protagonistas. Para mim, eu vejo como uma grande oportunidade poder aproximar a sociedade Puyanawa a esses outros conhecimentos e instituições. Depois que vencemos o Climathon e eu fiz uma publicação, alguns outros jovens me perguntaram sobre esse programa e estão querendo participar comigo desse projeto. Estou bastante feliz.

Karla: Um desafio que percebemos durante o Climathon foi a questão da conectividade. O Climathon aconteceu predominantemente virtual. Dentro das vulnerabilidades acentuadas por conta da Covid-19, isso acaba excluindo muitas pessoas e jovens de criarem novas perspectivas para os territórios. 

Nós temos 3 milhões de amazônidas à margem do exercício pleno da sua cidadania. Isso é algo muito preocupante quando nos relacionamos com a missão de manter a floresta em pé. Conectar com outros jovens e desenvolver essa consciência de comum é importante, pois isso reúne as juventudes amazônidas e é aí que reconhecemos a nossa dor. 

PPA: Quais as expectativas de vocês em relação ao legado deixado por essa experiência? O que gostariam de desenvolver e/ou aprimorar daqui para frente?

Karla: Os frutos começaram a ser colhidos antes mesmo do Climathon acontecer. É como se fosse uma “acupuntura” na juventude. Você tem uma problemática e começa a engajar as juventudes em torno desse tema. Isso é essencial. Um dos principais resultados do Climathon foi o engajamento de mais de 150 jovens na causa. Uma dificuldade era engajar a juventude da Amazônia em bioeconomia, mas precisamos entender que já temos juventudes engajadas nessa pauta. O que precisamos realmente é nos coligar com esses movimentos em prol das organizações do territórios.

Outro resultado incrível é esse interesse. Inevitavelmente, quando o jovem é premiado, recebe um incentivo para continuar naquela ideia e desperta a vontade de se engajar e participar dessas oportunidades em outros jovens. Fortalecemos outras juventudes que estão em uma perspectiva satélite e à margem dessa iniciativa é outro ganho. As capacitações com o curso do YCL e mentorias, por exemplo, abrem outras oportunidades. O Jósimo, por exemplo, teve a oportunidade de negociar um computador para que uma jovem tivesse acesso ao curso YCL. Esse engajamento toca outras pessoas que estão sintonizadas nesta causa. Temos outros vários ganhos, na perspectiva monetária, por exemplo. É preciso ter investimento de verba nas nossas ideias para que possamos tirá-las do papel. É disruptivo. Precisamos fortalecer financeiramente essas iniciativas, coletivos e juventudes. Temos quatro ideias engajadas com micro investimento para fazer isso acontecer. 

Um último resultado importante é fomentar os sonhos das juventudes amazônicas e dar o protagonismo a ela. Temos dificuldades de romper bolhas e chegar nesse lugar de protagonismo. Fomentar sonhos, lutas, construções e narrativas é um dos principais ganhos.

Jósimo: A minha expectativa tem se tornado cada vez maior. Eu sou muito ligado no que se refere à memória do meu povo. Estamos hoje dentro de um resgate cultural, em que pretendemos trazer muitos elementos, conhecimentos, das nossas tradições antigas. A expectativa maior é que a nossa história, as nossas narrativas e os nossos elementos não morram. 

Cada vez mais, temos uma juventude engajada, conhecendo os nossos valores, dentro da nossa história. Um território protegido, demarcado, é essencial para garantir ainda mais os direitos do povo Puyanawa, garantir a inclusão digital do povo, abrir horizontes e novas expectativas, principalmente para os mais jovens. Queremos promover um diálogo entre as sociedades indígenas e não indígenas… Até pouco tempo antes do Climathon, não estávamos fortalecendo esse diálogo maior. A minha expectativa vai muito além. Tenho um grande sonho de construir uma casa tradicional na nossa comunidade, para viver o que é do nosso mundo. Para mim, como indígena, esse vai ser o maior resultado.

Para acompanhar mais entrevistas da série “Aprendizados do Portfólio” e a campanha Caminhos para a Amazônia da PPA, acesse: www.ppa.org.br/caminhosamazonia